Indicadores de desonestidade:

Detectando anomalias no depoimento

Muitos são os estudos que buscam encontrar uma forma de detectar anomalias em um determinado contexto, afim de revelar o potencial de credibilidade da informação e um deles é o emprego da análise da narrativa da obtenção de um depoimento. Alguns dos método utilizados são conhecidos como análise não-verbal, onde o avaliador, por sua vez, lança mão de um arcabouço de técnicas de observação do indivíduo afim de obter algum gesto revelador que pode trazer a tona a real emoção do entrevistado.

Ainda no conceito de análise não-verbal, temos o mais notório de todos os pesquisadores até o momento, o Dr. Paul Ekmann que perpetuou seu trabalho com base na analise das emoções, onde seus estudos da face possibilitaram, em 1978, a criação do Facial Action Coding System (FACS), também chamado por Ekman, de microexpressões, afirma que “(…) movimentos faciais muito rápidos, que duram menos de um quinto de segundo, [que] são uma importante fonte de vazamento, revelando a emoção que a pessoa está tentando dissimular. De acordo com Ekman (2007, p.15), é possível identificar facilmente a falsidade das expressões, visto que “[…] são ligeiramente assimétricas e não possuem suavidade na maneira que fluem no rosto”.

A Análise Investigativa do Discurso, de Don Rabon, por sua vez tem fundamental importância na avaliação de credibilidade com base nos depoimentos, que após transcritos podem então ser analisados e mensurados. Fonte: https://leb.fbi.gov/articles/featured-articles/exploiting-verbal-markers-of-deception-across-ethnic-lines-an-investigative-tool-for-cross-cultural-interviewing-, acessado em 31/08/2020.

Ainda na mesma publicação Rabon enfatiza que “um erro revelará a verdade. Um entrevistado enganoso só cometerá erros quando o entrevistador o conduziu através de sua estratégia de perguntas para utilizar a falsificação (mentira) como um meio de continuar o engano. Enquanto o entrevistado puder enganar com ocultação, ele não cometerá erros. A complexidade do engano por meio da falsificação exige que o entrevistado se lembre da mentira afirmada que foi tirada de sua imaginação. Quando o entrevistador começa a explorar os detalhes sobre a mentira, o enganador agora precisa se lembrar de suas mentiras exatas e de quando mentiu. A complexidade aumenta diametralmente devido à necessidade do entrevistado de lembrar informações continuamente fabricadas e oferece a possibilidade de que o enganador, inadvertidamente, diga algo que revele a verdade”.

É importante que o investigador tenha um certo domínio de algumas técnicas para aplicar nos mais diversos cenários que poderá atuar. Um dos pontos altos de uma investigação é a obtenção de depoimento, seja ele de forma oral ou escrito, seja por e-mail, canal de denúncia, entre outros.

Uma denúncia precisa ser verificada e não somente se ela de fato é de algo real, mas também o teor, a forma de sua escrita pode revelar muitas outras informações importantes. Em contexto de investigação forense não é diferente, obter um depoimento exige habilidades extras, pois não basta ter respostas, é preciso saber fazer as perguntas de modo que não contamine a narrativa. Um questionamento mal elaborado pode revelar o que você quer ouvir e não o que você precise ouvir.

O entrevistador precisa formular corretamente as questões e observar diversos pontos nas respostas de seu entrevistado. Obter um depoimento que não seja puramente baseado em perguntas e respostas é de grande valia, ou seja, se o entrevistador tiver a habilidade de conseguir uma narrativa, o resultado será muito mais satisfatório.

Neste ponto é importante observar aquilo que é entregue, ou seja, é importante observar os fatos narrados, as respostas dadas, para que seja possível detectar qualquer incongruência que possa identificar algum indicador de desonestidade.

Dentre os indicadores de desonestidade podemos observar a falta de auto-referência, tempos verbais incoerentes, responder perguntas com outras perguntas, expressões de incerteza, juramentos, alusões, falta de detalhes específicos, equilíbrio narrativo, comprimento médio do enunciado.

Ao atuar em casos que envolvam a Forense Digital, para observar os indicadores de desonestidade, o investigador também necessitará conhecer técnicas de entrevista forense. Obter o melhor relato de um incidente, conduzindo a entrevista de forma adequada, faz parte do trabalho. Neste ensejo, cabe ao entrevistador conhecer os indicadores de desonestidade. Em relatos de canais de denúncia, que pode ser feito por e-mail, formulários da web, entre outros, o analista pode encontrar muita informação que precisa de avaliação de credibilidade.

Uma metodologia desenvolvida por Anderson Tamborim, o CDA – Credibility Discourse Analysis, tem por objetivo agilizar a Análise Investigativa do Discurso, com ajustes em definições de critérios afim de trazer um resultado mais assertivo, assim como o uso de métricas similares as encontradas no FACS de Ekman. O método foi desenvolvido com base na Entrevista Forense Investigativa e está dividido em 4 fases distintas, Preparação, Narrativa, Codificação e Laudo.

Figura :Fases do Processo de Análise. Fonte: https://ead.andersontamborim.com/2592-practitioner-em-analise-investigativa-do-discurso/273660-fases-do-processo-de-analise, acessado em 01 set. 2020.

Ao final do precsso de análise, o investigador pode criar uma hipótese e/ou uma teoria do caso, mudando ou seguindo o rumo da investigação afim de obter provas e/ou depoimentos complementares.

Indicadores de desonestidade

Aqui passamos a descrever alguns indicadores que podem ser um sinal de desonestidade, onde, analisando em conjunto com outros fatores, pode nos trazer um relato de baixa credibilidade e indicar que a incoerência é predominante na narrativa.

Falta de auto-referência – com a premissa de que pessoas utilizam o pronome “eu” em relatos honestos, a ausência deste pronome pode fazer com que o entrevistador receba um sinal de alerta. Neste ato, o enganador costuma suprimir o uso do pronome “eu” causando um efeito que chamamos de afastamento verbal, no entanto, não é o único indicador de incongruência. Podemos observar também, a substituição do pronome “eu” para “você”.

Observe as frases:

A porta não foi trancada” ao invés de “Eu não tranquei a porta”.

Então, sabe, você tenta fazer o procedimento recomendado, mas às vezes você libera sem nota fiscal mesmo”.

Tempos verbais incoerentes – é comum que o entrevistado, quando esteja tentando dissimular, acabe colocando eventos no passado.

Observe o relato:

Eu cheguei para trabalhar e a porta estava fechada. Neste momento, peguei a chave e abri a porta. Quando entrei, de repente, um cara salta na minha frente e toma o laptop que estava na mesa. Neste momento, em choque, desmaio e não lembro de mais nada.

Responder perguntas com outras perguntas – responder uma pergunta com outra pergunta também é um sinal de alerta. Acredita-se que mesmo o “mentiroso” não goste de mentir o tempo todo, pois isso além de desgastante é perigoso, visto que um simples deslize, poderá desmascará-lo.

Você acha que eu pegaria o dinheiro do meu próprio irmão?

Você não acha que alguém precisaria ser muito estúpido para levar outra mulher para dentro da própria casa?

Juramentos – Testemunhas verdadeiras não sentem a necessidade de sustentar sua declaração com juramentos, pois estão mais confiantes de que os fatos provarão a veracidade de suas declarações. 

Juro por Deus que eu já mais inventaria um desmaio para sair dessa”.

Quero que o céu desabe se eu peguei o dinheiro da sua carteira”.

Alusões a ações – neste caso, é feita citação, referência ou menção, indireta e breve sobre algum evento sem afirmar se realmente fizeram. Como por exemplo: “Tento guardar o laptop. Procuro guardar a chave em um local seguro.”, nestes casos, o loucutor guardou o laptop de fato?, a chave foi colocada em um local seguro?.

Falta de detalhes específicos – declarações credíveis geralmente contêm detalhes específicos, mesmo que alguns nem mesmo sejam relevantes para a pergunta feita. Isso acontece porque assuntos verdadeiros estão recuperando eventos da memória de longo prazo, e nossas memórias armazenam dezenas de fatos sobre cada experiência. Detalhes como a música que tocava, a roupa que estava sendo utilizada, assunto que estava sendo falado, entre outros.

 

Equilíbrio narrativo – toda narrativa precisa ter um prólogo, clímax e um epílogo. Em uma alusão às aulas de gramática, teríamos algo como introdução, desenvolvimento e conclusão. O balanço sugerido como uma narrativa credível, teria de 20% a 30% no prólogo, de 40% a 60% no clímax e 20% a 30% no epílogo.

Quando uma parte da narrativa for significativamente mais curta do que o esperado, informações importantes podem ter sido omitidas. No mesmo sentido, se uma parte da narrativa for significativamente mais longa do que o esperado, pode ser preenchida com informações falsas. 

Comprimento médio do enunciado (MLU) – O número médio de palavras por frase é chamado de “comprimento médio do enunciado” (MLU). A MLU é igual ao número total de palavras em uma declaração dividido pelo número de frases:  

Número total de palavras/Número total de sentenças = MLU

 

Referências

Ekman, P. (2007). Emotions revealed: recognizing faces and feelings to improve communication and emotional life. 2.ed. New York: St. Martin’s Griffin.

Ekman, P. & Friesen, W.V. (1975). Unmasking the Face: a guide to recognizing emotions from facial expressions. New Jersey: Prentice-Hall, Inc.

Ekman, P. (1992). Telling Lies: clues to deceit in the marketplace, politics, and marriage. New York: W. W. Norton & Company Inc.

The 10 Tell-Tale Signs of Deception, The Words Reveal. Disponível em: <https://www.acfe.com/article.aspx?id=4294971184>. Acessado em: 01 set. 2020.

Tamborim, Anderson. Practitioner em Análise Investigativa do Discurso. Disponível em: < https://analisedodiscurso.com.br>. Acessado em: 01 set. 2020.